Não se sabe se estava correndo por ruas vazias ou se tentava povoar sua memória com falsas nostalgias que havia inventado. E não agüentava mais ouvir de si mesma que era tudo certo, que ia ficar tudo bem, era mentira, não havia de ficar tudo bem, as coisas simplesmente não mudariam por um capricho fantasioso que ela mesma custava a acreditar, os olhos desesperados a alertavam de que algo muito errado acontecera, e não teria concerto. Ou seria simplesmente ela quem não teria concerto, teria finalmente se adaptado à ganância e ao egoísmo que todos estão acostumados a estabelecer como regra e seguir. Isso não fazia nenhum sentido para ela, mas nesse momento, a rua vazia começava a encher-se de pessoas iguais, que acham a cura para o próprio veneno em terapeutas e livros de auto-ajuda. Sua alienação era diferente, era concreta. Acostuma-se cada vez mais com comentários de terceiros que passam como o vento ao tentar apagar a chama da vela. Prendia a respiração e segurava o choro para enganar seu ego ao tentar parecer forte, enquanto subitamente cristais frágeis quebravam-se pelas suas entranhas, isso corta, isso machuca e custa a parar. E continuava, sem entender como isso poderia acontecer frente aos seus olhos desesperados, que, por sorte mantém um filtro com a boca. Fecha os olhos para não ouvir, quando na verdade, isso nunca fez sentido nenhum para ela. Mas não precisam se preocupar, vai ficar tudo bem...